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sexta-feira, 13 de outubro de 2023

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Dia Mundial da Saude Mental. "Você não está sozinho."

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Substance use among 15- to 16-year-old students (ESPAD 2019)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Como é que o processo da dependência se desenvolve no adolescente? Por Philip Ward e Patricia Cobertt



«O abuso de drogas , por parte dos adolescentes, precisa de ser compreendido no contexto do próprio desenvolvimento dos jovens. A compreensão do abuso de drogas, pelos adolescentes exige uma abordagem multidimensional; biológica, psicológica, social e espiritual.
De acordo com abordagem multidimensional,  o desenvolvimento da adolescência consiste num período de vida repleto de mudanças dramáticas e transições. A diferença entre adultos e os adolescentes, é que os jovens, durante este período de tempo encontram-se num processo de transições, estando assim, mais expostos aos riscos, perigos do abuso das drogas e consequências negativas, a longo prazo.

A adolescência é um período de transição e caos de acordo com a seguinte lista de comportamentos observados nos jovens:
  • Os adolescentes estão num processo de mudança: da dependência para a independência.
  • Exploram a sua identidade e o autoconceito.
  • As suas experiências intrapessoais (sentimentos, desejos, valores, necessidades) refletem-se nos seus relacionamentos interpessoais.
  • É considerado normal, afastarem-se dos pais e procurar a companhia dos pares.
  • O processo biológico envolve o afastamento dos pais.
  • O objetivo deste processo biológico é a autonomia e a vida adulta.

Porque é que os “bons rapazes” envolvem-se em “comportamentos errados”? Existem pelo menos duas respostas. 1) A resposta é simples, na maioria dos casos, os “comportamentos errados” não produzem sensações negativas. 2) A resposta representa um significado diferente para o adolescente: Qual é o risco de consumires drogas? Para os pais, tudo aquilo que represente um potencial risco ou perigo para os seus filhos, está incluído na lista das coisas “más” e “erradas”. Para os adolescentes, em pleno processo de transição, que procuram integrar-se, explorar a sexualidade, experimentar identidades, curiosidade em estilos diferentes de vida e procurar o afastamento dos pais, os “comportamentos errados”, segundo os pais,  são considerados uma ajuda que pode facilitar o processo de mudança caótico e dramático. Tal como acontece na sociedade, certas normas e regras determinam o comportamento permitido e lícito versus o comportamento errado e ilícito.

Processo da dependência – a introdução à “pedrada”; o individuo estar sob o efeito das substâncias psicoativas.
Os objetivos de um adolescente com baixa autoestima, a que vamos chamar Pedro (nome fictício), deslocar-se a uma discoteca são; parecer “cool” e divertir-se com os seus amigos. Considerando este cenário, como ponto de partida, a dada altura na discoteca, um dos amigos do Pedro, acende um charro, dá umas passas e depois passa ao Pedro que faz o mesmo e passa a outro. Após a primeira experiência ao dar umas passas num charro, o Pedro sente-se diferente e desinibido. Fumar canábis pode atenuar ou neutralizar a ansiedade. Sob o efeito da substância o jovem sente-se desinibido e ligado (identificado) aos seus pares. Tal como já foi referido anteriormente, identificar-se com os seus amigos é um dos fatores críticos do desenvolvimento da adolescência, assim sendo, se os amigos do Pedro consomem drogas o efeito da identificação (pertença ao grupo) é reforçado. O Pedro, pensa, “Afinal fumar canábis não é assim tão perigoso, como os meus pais afirmam…”. Esta reflexão do Pedro poderá ser o fio condutor que o conduza às próximas experiências com drogas, surte um efeito semelhante, durante os primeiros dias de um envolvimento romântico apaixonado. No fim de semana seguinte, o Pedro vai a outra festa, mas ninguém o convida para consumir canábis, o jovem identifica um tipo diferente de sensações, enquanto na festa anterior não sente ansiedade, nesta festa, fica com uma sensação desconfortável e com a sensação de que toda a gente presente na festa, está ciente das suas inseguranças e defeitos (centro das atenções). Esta constatação é acrescida pelo seguinte raciocínio, pelo Pedro: “Se eu fumar canábis, sinto-me seguro e na boa, mas se não fumar, sinto-me desconfortável…”
Nesta fase do processo, em contextos sociais, pode ter havido uma mudança significativa na perceção do Pedro; a procura do efeito desinibidor da canábis. Tudo isto não acontece de um dia para o outro, é um processo e não se resume a somente a um único evento. Tal como acontece com o tabaco, o objetivo dos jovens quando começam a fumar não é desenvolver um enfisema pulmonar ou cancro. Ficar pedrado, não se resume a um processo cognitivo, é um experiencia que envolve todo o ser que prevê todo um conjunto de benefícios, tais como, ter amigos diferentes, desenvolver um tipo de linguagem secreta/código, novas sensações, novos conhecimentos e o consumo de canábis pode revelar-se mais recompensador para o desenvolvimento do jovem adolescente. Agora, o Pedro pertence a uma cultura com mentalidades diferentes e aparentemente foi aceite no seio dos seus pares.

Conhecer o efeito da canábis – “A pedrada”
Nesta fase do processo, o Pedro passa uma parte considerável do tempo a refletir nestas experiências, sensações e efeitos. Está a tentar compreender e a adquirir conhecimento do significado de “estar pedrado”, o que na prática, pode consistir em; como é que pode adquirir o produto, consumir, gerir o efeito da “pedrada” e esconder o consumo de drogas. Todas estas atividades envolvem um tipo de doutrina subjacente a este tipo de cultura. Na perspetiva do desenvolvimento do adolescente, podemos equacionar e comparar esta subcultura à autonomia dos pais, uma nova identidade e a pertença a um grupo de pares. Para quem não percebe nada do assunto, todas estas atividades, exigem energia, compromisso, esforço e segredos. Os adolescentes, não estão neurofisiologicamente preparados para identificar e reconhecer os efeitos negativos do consumo de drogas, principalmente a longo prazo. Consequentemente, todos os adolescentes, envolvidos neste tipo de subcultura, desconhecem os riscos e os perigos. Tal como o Pedro, os amigos que consomem drogas, não estão informados sobre a acumulação sinérgica (efeitos a longo prazo) dos e efeitos negativos do consumo de drogas. Com o tempo, o consumo frequente aumenta o potencial perigo, enquanto por outro lado, a compreensão do adolescente sobre o fenómeno diminui. Enquanto mecanismo de defesa (pensamento distorcido) a compreensão e a perceção do problema diminuem, enquanto o perigo sobre o abuso aumenta, sem a existência da perceção necessária para tomar medidas saudáveis por parte do adolescente. O processo da dependência ocorre a níveis inconscientes e encobertos.
A próxima fase do processo ocorre quando o jovem sente as primeiras consequências negativas do consumo de drogas. Ao contrario do que acontece no período de experimentação de drogas, as consequências negativas ocorrem quando existe uma mudança de atitudes e comportamentos, que o colocam “oficialmente” no clube dos dependentes em risco. Nesta fase, quando o jovem é confrontado com as consequências negativas, tem somente duas hipóteses; 1) desviar-se deste caminho ou 2) continuar o consumo, até ao abuso e a dependência. A opção número dois é percecionada, erradamente, pelo adolescente, como uma forma de neutralizar e negar as consequências negativas.

É admitido o consumo de drogas
Nesta fase, as pessoas, incluindo os familiares e colegas que não estão envolvidos no consumo de drogas, começam a identificar alguns sinais ou sintomas relacionados com o consumo de drogas. Nesta altura do processo, o Pedro está a afastar-se da “vida normal” e a desenvolver uma dependência. Na maioria dos casos, este afastamento do adolescente, é enganador e gera alguma confusão entre os pais ou professores porque do ponto de vista do desenvolvimento, pode ser confundido com a autonomia dos pais e com o relacionar-se com os seus pares – “coisas da adolescência”.
Normalmente, é permitido aos adolescentes, uma maior autonomia e liberdade quando desenvolvem a sua independência, nestes casos de risco/abuso de drogas, revela-se confuso e difícil distinguir entre o “normal” desenvolvimento (cansaço, irritação, mau humor, segredos) e o comportamento adictivo (dependência de drogas).
Os adolescentes, durante o período do desenvolvimento, são constantemente bombardeados com mensagens contraditórias, próprias da cultura, por exemplo, em relação ao álcool. Os próprios adolescentes, encaram o consumo e abuso de bebidas alcoólicas, por parte dos adultos, como algo legitimo e fazendo parte do ritual de passagem para a idade adulta.

O reconhecimento da dependência é um processo, não um único evento
Na maioria dos casos, para os pais identificar o filho/a como um dependente de drogas é um processo que ocorre durante algum tempo. Muitas vezes, este processo de identificação do filho com o abuso ou dependência de drogas é dificultado, por exemplo, devido à falta de informação sobre os sinais e sintomas do abuso e dependência de drogas, sentimentos de culpa e responsabilidade. Por parte dos pais, admitir que o filho/a é dependente de drogas pode desencadear sentimentos de medo, raiva e confusão e este processo de admissão da dependência inicia-se quando as consequências do abuso de drogas se revelam demasiado evidentes, de tal forma que é impossível ser negado.
Considere o seguinte exemplo. Finalmente, depois de tanto tempo, o progenitor assumiu a consciência do problema, permitiu que o filho tivesse abusado de drogas, assim como, passar pelas consequências negativas. O oposto a esta situação, nesta altura, um bom exemplo de parentalidade é decidir, a qualquer custo salvar o filho. A maioria dos pais, não possuem as competências necessárias a fim de abordarem a dependência de drogas e recorrem a instituições de tratamento, que na maioria dos casos não possuem as competências necessárias para abordar a dependência na adolescência.

Focar no processo em vez de no conteúdo
O objetivo consiste na mudança de dinâmica por parte dos pais do jovem. Os detalhes não são importantes para o reconhecimento do problema. É mais eficaz focar-se nas preocupações em vez de dissecar o problema; quem, o quê, quando, onde e porquê. Na fase do reconhecimento do problema, os pais exageram nos detalhes.  Exagerar nos detalhes poderá revelar-se enganador quanto à identificação e reconhecimento da realidade (processo) da dependência de drogas.

A dependência na adolescência no próprio contexto/sistema familiar
Muitas vezes, inconscientemente, para o adolescente, sente que é o causador dos problemas no contexto familiar. No seio do contexto familiar, os seus comportamentos disfuncionais são encobertos, mas são apresentados ao exterior como a causa da disfunção familiar. A dependência de drogas é capaz de gerar ansiedade generalizada, no contexto familiar, responsável por produzir conflitos nas relações interpessoais entre familiares. Se o adolescente está doente, a própria família também irá manifestar os sintomas da doença. Tipicamente, o conflito familiar é um sintoma de que cada membro da família está a sofrer as consequências negativas; isto é, cada membro da família irá contribuir para o problema familiar. Segundo esta desarticulação, vulgo co dependência, é a consequência da família tentar controlar o problema, em vez de cada um lidar com os seus próprios sentimentos. É fundamental que os progenitores separem os seus próprios sentimentos, crenças e ideias das do adolescente. De acordo com a minha experiência, aquilo que um progenitor precisa de fazer, nestas situações caóticas afim de ajudar o adolescente, é em primeiro lugar procurar ajuda para si próprio. 
Aquelas pessoas que se sentem descontroladas, para o exterior, aparentam estar controladas.»

Comentário: Nos casos que acompanho, os pais apresentam dois tipos de reações, perante o conhecimento dos consumos de canábis dos seus filhos. 1) Pavor e impotência ou 2) benévolos e compreensivos. Como existem muitas “teorias” e mitos sobre o consumo de canábis, cada um tem a sua, os pais reagem de várias maneiras. Todavia, uma coisa é referirmo-nos ao consumo de canábis ocasional, num contexto social e divertimento, outra coisa é o consumo excessivo (abuso) ou dependência no contexto familiar e social. Felizmente, a maioria dos jovens que consome canábis não abusa ou fica dependente, escolhe outro caminho, outro rumo diferente, mas existe um grupo de adolescentes, mais vulneráveis, que abusa e fica dependente, cujas consequências negativas manifestam-se no seu desenvolvimento; competências individuais e sociais. Como o processo da adolescência é complexo, revela-se uma tarefa difícil, identificar ou diagnosticar os sintomas do abuso e da dependência.
Gostaria de salientar, um tema abordado pelos autores, que são as consequências negativas, na estrutura e dinâmicas familiares, quando o adolescente é dependente. Nestes casos, a família precisa de se manter coesa e informada a fim de evitar o caos, consequência da dependência da canábis. Caso você identifique sinais ou sintomas que sejam suspeitos, mantenha-se atento: alteração brusca de rotinas e hábitos, fraco aproveitamento escolar, “esconde” os amigos, isola-se da família, agressividade, gasta rapidamente a semanada, cheiro estranho no quarto, pequenos furtos ou mentiras peça ajuda profissional, para a família. Não permita que a vergonha e a negação o impeçam de abordar o tema com profissionais.   
Quanto mais depressa se identificar um problema de abuso ou dependência maiores são as possibilidades de o tratamento surtir efeito.





sábado, 5 de julho de 2014

Uma triangulação polémica entre pais e filhos


Um grupo de alunos da Universidade Católica de Lisboa - Faculdade de Ciências Humanas envolvidos num trabalho para a disciplina de Métodos e Técnicas de Investigação em Ciências Sociais, com a professora doutora Teresa Líbano, convidou-me para participar no seu trabalho sobre o fenómeno das drogas e dos consumidores em Portugal. 

De acordo com a minha experiencia profissional, a grande maioria dos pais lida, atrevo-me a acrescentar, reage mal quando descobrem que o filho/filha consome drogas. Quando descobrem, os comportamentos dos pais, oscila entre as ameaças verbais e os castigos desproporcionados e a passividade, a complacência e a impotência. Estes comportamentos disfuncionais revelam uma ausência de um plano ou uma estratégia sobre a temática das drogas ilícitas. Saiba mais (siga o link) Pais, filhos e as drogas 

sábado, 25 de janeiro de 2014

Como não avançamos a tendência é para cristalizar


Em pleno seculo XXI, a prevenção das drogas em Portugal ainda é um mito.
Você considera que a nossa cultura reforça a prevenção das dependências? Na minha opinião, a resposta não é fácil, mas creio haver necessidade de uma revolução, porque as dependências de substâncias psicoactivas licítas, do Sistema Nervoso Central, incluindo o álcool e as ilícitas, são uma epidemia e representam um problema de saúde pública com custos elevadíssimos. Caso não se tomem as devidas precauções a tendência é para se agravarem visto negarmos esta realidade. E enquanto for negada vai assumindo proporções epidémicas. Só para se ter uma ideia, o álcool é a droga mais perigosa, comparativamente a todos as outras,por ser ser aceite socialmente.

Segundo Edward B. Tylor cultura é «Aquele todo complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade.» A sociedade somos nós.

O fenómeno tende a alastrar-se
Desde o princípio dos anos 80, após a revolução do 25 de Abril de 1974, não existe uma política que contemple um plano de prevenção das dependências direccionado para os jovens, pais e escolas. Não existe uma cultura de investigadores, de educadores, de instituições e profissionais e de pais que assumam um compromisso sobre a prevenção. Outra situação idêntica, educação sexual inexistente nas escolas. Se o ser humano pratica sexo há milhares de anos, qual é o problema abordar o tema abertamente? São os mitos? Os preconceitos? Ou outra razão que eu desconheça? O mesmo acontece com o álcool e outras drogas. Se o ser humano sempre consumiu drogas, desde os primórdios da humanidade, qual é o problema em abordar o tema abertamente?

Se o ser humano sempre consumiu drogas, a partir dos anos 60, este fenómeno assumiu proporções epidémicas em todo o mundo. O mundo das drogas (produção, trafico, consumo e a dependência) é complexo, mas também precisamos de admitir que o contexto social tem sido terreno fértil para a sua propagação. Existe uma cultura (moda) que procura sensações fortes de prazer e bem-estar a fim de descomprimir das tensões, do tédio e que visa acabar com o sofrimento através de drogas, incluindo a auto medicação, substâncias sujeitas a prescrição medica (por exemplo, os ansiolíticos). Existem drogas diferentes para todos os tipos de preferências, tendências, contextos e estatuto sociais, a procura supera a oferta; estão criadas as condições para um negócio lucrativo. O tráfico, o consumo ocasional, o abuso e a dependência são uma indústria com lucros muito significativos. Estima-se em 160 mil milhões de dólares, oriundos do narcotráfico, anualmente, lavados na banca internacional. O negócio global de muitos milhões de dólares, dinheiro sujo das drogas, é constituído por um sem número de parceiros, interesses e «fiéis» colaboradores que ajudam a sustentar a economia global. É um círculo vicioso.

A prevenção das dependências de drogas, incluindo o álcool, começa no berço.  
Em Portugal, a prevenção das drogas nunca foi uma prioridade para os decisores políticos, apesar de os candidatos às eleições visitarem instituições, para pessoas com problemas com drogas, somente para angariarem votos e fazerem promessas que depois não cumprem. Por exemplo em relação às drogas ilícitas, os líderes políticos centram o combate no tráfico, recorrendo às forças policiais. Esta estratégia não visa a prevenção, e está provado que não surte efeito. Prende-se um traficante, imediatamente este é substituído por mais dois ou três. Alguns países da Ásia, ainda aplicam a pena de morte aos traficantes, mesmo assim, este tipo de leis não conseguem erradicar o tráfico de drogas naqueles países. 

Como referência de mudança de mentalidades e cultura, após o 25 de Abril de 1974 e o boom das drogas ilícitas (por exemplo, refiro-me ao canábis, à heroína e à cocaína), passados 40 anos, actualmente algumas pessoas ainda consideram «os drogados» uns criminosos e marginais que deviam ir presos. As prisões não tratam as dependências. Alguns pais ainda adoptam a estratégia de prevenção, em relação aos filhos adolescentes, afirmando «Se tocas em drogas, esquece que sou teu pai», as ameaças ou a agressividade nunca funcionaram, muito menos nos dia de hoje, enquanto outros pais, creio serem em maioria, optarem pelo silêncio. Desde 1974 até 2014 quais são as diferenças culturais que contemplam a prevenção das dependências? Ao longo dos últimos 40 anos quais foram as lições que aprendemos sobre a prevenção das dependências? Desde os anos 80, e após os avanços tecnológicos nos anos 90, continuamos a ter pânico que os nossos filhos se tornem dependentes de drogas e ou álcool, como se fosse um vírus, mas na realidade, pouco fazemos para mudar esse cenário assustador. Negamos as evidências, com a agravante de ainda acreditarmos que esse tipo de problema só acontece aos outros. Paradoxalmente, recordo conversas com pais, políticos, professores, médicos, onde o tema central é a prevenção, e todos são unânimes “ É urgente fazer qualquer coisa.” Falta passar das palavras aos actos. O estigma, a negação e a vergonha relacionado com as drogas interferem na prevenção das dependências. Isto é, sabemos que o problema subsiste, mas negamos os factos.

Actualmente, relativamente à educação dos filhos, uma grande parte dos pais tem sentimentos de culpa, porque considera que falharam em algo. Surpreendentemente, o sentimento de culpa já existia antes mesmo de ser pai ou mãe, já existia na família, na educação, no emprego ou carreira profissional. Delegamos à escola e à sociedade, essa tarefa complexa da educação, porque como pais, não possuímos disponibilidade para o fazer. Quando alguma coisa corre mal, imediatamente apontamos o dedo e arranjamos um culpado. Não iremos resolver as questões mais complexas encobrindo aquilo que realmente precisa de ser feito procurando culpados. Oiço muitos pais afirmarem “ Ser pai/mãe é difícil. Não existe um livro que nos ensine a educar os nossos filhos.» Eu acrescento, se existisse o tal livro, não tínhamos tempo para ler. Andamos numa correria, sem ter um propósito concreto. Como pais ansiamos que a educação que incutimos nos nossos filhos resulte. Paralelamente, também ambicionamos ideais de grandeza e sucesso para eles, mas por outro lado, como educadores sobrevivemos como podemos a acontecimentos que colocam em risco a segurança e a pertença (amor). Existe um sentimento geral de impotência perante o poder económico, a crise financeira e social (injustiça, as desigualdades, o desemprego, a precariedade). Será honesto e legitimo ambicionar ideais de grandeza e sucesso, para os nossos filhos, quando na realidade, como pais sentimo-nos culpados e impotentes perante a sociedade consumista e hedonista? Perante a sociedade, queremos ser mais inteligentes, mas não somos. Queremos ser mais ricos, mas não somos. Queremos ser mais felizes, mas não somos. Queremos um futuro para os nossos filhos, mas não sabemos como orienta-los - qualquer coisa que possamos fazer, nunca chega e nunca é suficiente, é preciso mais e mais.

É do conhecimento geral, e reforçado pelos estudos, que a pré-adolescência é o período critico em que os jovens iniciam as suas primeiras experiências com as drogas; primeiro com o tabaco, depois o álcool, de seguida, outras drogas ilícitas. Sabendo deste fenómeno e os custos elevados, quais são as estratégias de prevenção adoptadas para o período pré-adolescência/infância? Quais são as estratégias de prevenção do binge drinking, beber álcool cujo intuito é a intoxicação/embriaguez? Do tabaco? Do consumo das drogas ilícitas? Da condução sob o efeito do álcool? Da gravidez indesejada? Do suicídio? Da transmissão de doenças sexualmente transmissíveis?
   
Alguns dados
  • Outro fenómeno preocupante são as novas drogas legais. Sabia que até Abril 2013 foram identificadas 105 novas drogas legais. O consumo de droga, incluindo o álcool, é uma das principais causas de morte entre os jovens na Europa, refere o Relatório Europeu sobre Drogas 2013, divulgado em Lisboa pela agência europeia de informação sobre este problema (EMCDDA).
  • Em Junho de 2011 a Comissão Global de Política de Drogas afirmou: "A guerra global contra as drogas falhou, com consequências devastadoras para indivíduos e sociedades pelo mundo. Cinquenta anos após o início da Convenção de Narcóticos da ONU, e anos depois do presidente Nixon ter lançado a guerra contra as drogas, reformas fundamentais no controlo global de drogas a nível nacional e internacional são urgentemente necessárias"
  • A indústria do álcool, através do recurso a técnicas agressivas de marketing,  da comunicação social e dos lóbis insistem em associar o consumo de bebidas alcoólicas e o desporto. Por exemplo, colando marcas de bebidas alcoólicas à selecção portuguesa de futebol e à Liga de Futebol. Na minha opinião, é inadmissível e são incompatíveis; não colam. O desporto e as drogas não são compatíveis. O álcool é uma droga lícita, tal como o tabaco. Esta situação só é possível graças aos milhares de euros, aos lobis e outros interesses. Causa-me consternação, agravada com a conivência das autoridades, existirem empresas e pessoas, membros de família e com filhos, que dedicam horas, dias e meses do seu trabalho a elaborar estratégias (marketing  agressivo) que visam o consumo de álcool direccionado para os jovens.
  • Segundo um inquérito aos alunos da Universidade de Lisboa (UL), resultado de uma parceria entre a UL, o Conselho Nacional de Juventude e o Serviço de Intervenção em Comportamentos Adctivos, afirma que 40% dos alunos do Superior já experimentaram drogas. Canábis lidera os consumos, seguido pelas smart drugs, anfetaminas e cocaína. 36,2% dos jovens que bebem álcool fizeram-no pela primeira vez antes dos 15 anos.
  • 01/12/2013 Reportagem no Jornal de Noticias: “100 mil pessoas na rua naquela que é a noite mais longa em Guimarães. Recorde álcool no pinheiro Nicolino. (…) O que não se esperava é que os Bombeiros de Guimarães tiveram tanto trabalho no transporte de nicolinos alcoolizados. Foram 26 internamentos por princípio de coma alcoólico ou mesmo efectivado. O maior numero de sempre, sendo que no ano passado foram 17.”
  • O Epiteen estudo realizado, pelo Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, ao longo da última década, a quase três mil jovens, todos nascidos em 1990 e alunos nas escolas públicas e privadas do Porto, que avaliou os participantes aos 13, aos 17 e aos 21 anos revela relação de violência na adolescência com agressões mais tarde. 77% dos jovens afirmaram experimentar drogas por curiosidade. Canábis lidera os consumos, seguido pelo álcool e tranquilizantes. Segundo os jovens (24%) a escola é o local onde é possível obter o canábis.
  • Anúncios entre programas de televisão infantis. Segundo o Conselho Económico e Social Europeu defende a erradicação total da publicidade nos intervalos de programas infantis, de forma a evitar outros efeitos, o aumento do «bullying de marca».
  • Notícia do Jornal de Noticias: «Filhos dos pobres não conseguem fugir da pobreza. Portugal é dos países onde é mais difícil quebrar ciclos de pobreza entre gerações muito por causa da imobilidade educativa: pais pouco instruídos têm, sobretudo, filhos também pouco instruídos. Situação educativa e económica das famílias é determinante para o futuro dos filhos.»
  • «A pobreza é como que hereditária” Eurostat, dados de 2011.
  • Segundo dados da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, registou 261 mortos, entre a população jovem, com idades compreendidas entre os 18 e os 24 anos de 2010 a 2012. O álcool está associado à mortalidade rodoviária entre os jovens.
  • De acordo com um testemunho de um jovem de 24 anos, acerca da condução sobre o efeito do álcool afirmou: «É normal, já estou habituado.»
  • As campanhas de sensibilização sobre os perigos da condução sobre o efeito do álcool não são suficientes. O objectivo das campanhas estão direccionadas para o comportamento do individuo, visando desresponsabilizar, os decisores políticos e a indústria do álcool. Quantas mortes são necessárias para inverter esta politica de negação? 

Já diz o ditado popular «Mais vale prevenir do que remediar» e na prevenção das dependências urge uma revolução.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Conduzir sob o efeito do álcool e as vitimas inocentes




Sabia que a condução sob o efeito de álcool e/ou outras drogas pode transformar a viatura numa arma letal com consequências trágicas e com vitimas inocentes.
Veja este video controverso, sobre um individuo que afirma ter morto uma pessoa enquanto conduzia o seu carro sob o efeito do álcool.
Noticias 2013
28/12/13 «428 pessoas detidas por excesso de alcool na época do natal.»
05/08/13 " Político responde por homicídio negligente e condução sob o efeito de álcool num acidente que causou a morte de um jovem de 19 anos"
06/08/13 "Mais de cem condutores com alcool a mais. A GNR deteve no domingo 136 condutores com excesso de alcool."
27/08/13 "68 condutores detidos com excesso de alcool. GNR deteve, no fim de semana, (...) 68 detenções a individuos que conduziam sob o efeito do alcool."
24/09/13 "1390 detenções na Operação Verão Seguro. (...) entre 15 de agosto e 15 de setembro, 620 das quais por excesso de álcool (...)."

Partilhe este video pelos seus contatos de forma a chegar ao maior numero de pessoas a fim de sensibilizar para este tipo de tragédia.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Onde é que ficamos? Qual é afinal a realidade? Decida você



“Governo recua e distingue vinho e cerveja das bebidas espirituosas. Nova lei proíbe álcool de teor elevado a menores mas mantém os 16 anos para bebidas “leves”. Associação de bebidas e peritos falam em cedência a lóbis. A diferenciação dos limites etários – 16 e 18 anos- consoante o teor de álcool, definida no novo diploma, aprovado, no dia 21/2/13, pelo Conselho de Ministros, veio defraudar entidades ouvidas durante a elaboração da lei para o consumo do álcool. É conhecida a posição de Pires de Lima contra a proposta da proibição alargada aos 18 anos. Pires de Lima é o presidente da Associação de Produtores de Cerveja e também presidente da mesa do conselho nacional do CDS-PP.  ” Lê se na notícia do Jornal de Notícias de 22/2/13. Podemos acrescentar na mesma notícia, segundo o secretário de Estado adjunto da Saúde “(…) a medida tenciona sobretudo impedir a embriaguez dos jovens” Jornal de Noticias, 22/2/13. Esta é a versão dos políticos, dos interesses da Industria do Álcool (lobbies) e que contam com a conivência dos órgãos da comunicação social, sobre o problema de saúde pública relacionado com o álcool. 

Repito mais uma vez, visto ter publicado já este facto no blogue, você sabia que existem um milhão e meio de pessoas que bebe em excesso e metade delas é alcoólica, em Portugal? No artigo do JN, para espanto de todos aqueles que trabalham nesta área e ou das famílias, incluindo as crianças afectadas pelo álcool, o jornalista ainda refere na notícia, “bebidas leves.” Apesar dos média teimarem em confundir a opinião publica e alimentar mitos, não existe este conceito “bebidas leves” quando sabemos o álcool é uma droga psicoactiva.

Reacções à Nova Lei
  • “Há três, quatro meses, a proposta à qual tivemos acesso, o limite de 18 anos aplicava-se a todo o tipo de álcool. Esta proposta não é consistente, o elemento álcool está presente em todas. Não podemos diferenciar o bom álcool do mau álcool. Tínhamos ficado satisfeitos para a subida de idade mínima dos 16 para os 18 anos. A lei parece ceder a pressões de vários grupos. O álcool é sempre prejudicial aos jovens. Na cerveja há também vários graus” George Sandeman, presidente da Associação de Comerciantes e Industriais de Bebidas Espirituosas e Vinhos
  • “Uma cedência total aos lobbies. Esta lei serve a estratégia de fidelizar os jovens para o consumo de álcool – beber desde cedo, para criar hábito. É uma cedência total aos lobbies das grandes empresas e das multinacionais. Estamos a mascarar o problema. O álcool é álcool. É uma medida trágica.” João Manuel Ramos, responsável pela Associação de Cidadãos Auto Mobilizados
  • “A medida fica coxa, é uma medida a medo. Quem trabalha nesta área sabe que se está diante do efeito de pressões. A lei é confusa criando uma mensagem difícil de explicar aos mais novos” Rui Tato Marinho, medico e coordenador de hepatologia da Ordem dos Médicos
Depois de sabermos a opinião dos políticos e da Industria do Alcool, também iremos saber algumas reacções de entidades e os seus representantes, agora vamos abordar o lado realista e negro do fenómeno do alcool e as suas vitimas  Senão vejamos, "Coma alcoólico leva direcção do Instituto Politécnico do Cávado e Ave (IPCA) a suspender praxe. Foram ultrapassados os limites para além do tolerável, João Carvalho presidente do IPCA, em Barcelos, ao comentar o incidente, dentro do campus da instituição, que levou três alunos, em coma alcoólico, ao Hospital de Barcelos após o Rali das Tascas organizado pela Tuna do IPCA, em parceria com a Comissão de Praxe. (…) Os alunos hospitalizados, duas raparigas de 19 anos e um rapaz de 18, já tiveram alta. O caso mais grave saiu apenas na madrugada de ontem” Noticia do JN de 21/2/13

Excertos de uma reportagem publicada no suplemento que faz parte da edição do Correio da Manhã. “Noite de copos. Consumo de álcool por adolescentes em Portugal aumentou. Não há lei que trave.  No grupo de Alberto (nome fictício) já não há menores de idade. O mais novo dos seis rapazes, Paulo (nome fictício), celebrava nessa noite 18 anos. Pelo menos, foi o que disseram. Um afirma que começou a sair à noite aos 14 anos e já apanhou “algumas bebedeiras. O acesso às bebidas, mesmo brancas, nunca foi problema, Nem vai mudar com a lei. Os comerciantes querem é fazer dinheiro e fecham os olhos às idades. E se não for assim, leva-se uma fotocópia do BI falsa, garante Alberto”
“Até dá dó. Às vezes, é preciso sair do carro para tocar às campainhas e pô-los dentro do prédio para chegarem a casa. No outro dia era uma miúda que estava estendida no largo, completamente inconsciente. A que estava com ela só olhava. Ainda saí do carro e fui lá, mas outro colega já tinha chamado uma ambulância” taxista na zona de Santos.
Segundo João Goulão, o presidente do Instituto da Droga e da Toxicodependência, “(…) diz nada ter a acrescentar, depois de reconhecer, no ano passado, que o consumo de bebidas alcoólicas aumentou entre os jovens, mas que estes apanham “menos bebedeiras” e bebem” cada vez mais cerveja” num consumo regular.
  • “Álcool é sempre álcool e quando se faz a avaliação de um doente conta apenas o número de unidades que bebe e não o tipo de bebida. Todas são igualmente perigosas” Francisco Henriques, da Unidade de Alcoologia de Lisboa.
  • “Esta lei é cínica e desrespeita o plano que fizemos com o Ministério da Saúde” Albino Almeida, presidente da Confederação das Associações de Pais
  • “Está provado que não se deveria beber antes dos 18 anos por causa do desenvolvimento cerebral” Luís Patrício, psiquiatra
Comentário: O fenómeno do Binge Drinking, que consiste no abuso de bebidas alcoólicas (período reduzido de tempo) cujo objectivo é a intoxicação/embriaguez é um problema que afecta crianças e jovens de todo o Mundo. Alguns países afirmam impotentes; ensinar as crianças a beber moderadamente não funciona, tal a pressão social, cultura que bebe, e as técnicas de marketing agressivas da indústria do álcool com a conivência dos políticos, da ordem dos médicos e advogados, tribunais e dos média. Infelizmente, Portugal inclui-se também nesta lista de países, com tendência para o fenómeno aumentar. Saiba mais sobre o que o Sr. secretário de Estado adjunto da Saúde afirmou recentemente sobre a prevenção e o serviço nacional de saúde sobre o álcool. 

sábado, 8 de setembro de 2012

O problema é grave, e a tendência é para piorar, mas negamos as evidências



Jornal de Noticias, de 18/8/2012
O Jornal de Notícias, na sua edição de 18 de Agosto, 2012, convidou sete personalidades para a participarem num painel sobre três questões relacionadas com a saúde em Portugal, todavia, vou somente selecionar a primeira porque é aquela que está diretamente relacionada com o tema da Prevenção das Dependências:
“Sociedade: Painel/ Tomar o pulso ao país” - Portugal é o terceiro maior consumidor de álcool da OCDE. Que consequências?”
 “Saúde: Portugal no pódio do consumo do álcool. Apesar dos números revelarem uma ligeira queda face aos últimos anos, Portugal mantém-se no pódio dos maiores consumidores de álcool do Mundo – 12,2 gramas per capita, a apenas uma décima de grama da França e empatado com a Áustria (números da OCDE). E há ainda a agravante de as estatísticas não incluírem o vinho produzido para consumo próprio. Sermos produtores de muitos e bons vinhos não justifica tudo. Sociavelmente, o álcool continua a ser um passaporte para um estilo “descontraído” e recebe um consentimento benevolente dentro das famílias e instituições. O crescimento das bebedeiras selvagens (botellón) aos fins-de-semana, entre os jovens mostram como as coisas estão a piorar ainda mais. Questão: Quem paga a factura? Quais são as consequências físicas e sociais? Eis uma chaga que nenhum Governo consegue sarar.” Jornal de Noticias.

 Portugal é o terceiro maior consumidor de álcool da OCDE. Que consequências?
  • António Ferreira - Presidente do Conselho de Administração do Hospital de S. João. Resposta: “A) Desagregação e violência familiar; B) Exclusão social; C) Agravamento do estado de saúde e desqualificação da população, diminuição da produtividade, etc”

  • Isabel Vaz - Presidente da Comissão Executiva da Espirito Santo Saúde. Resposta: “É um problema de saúde pública muito relevante pelas consequências sociais, da despesa e por ser um factor de risco de doenças cardiovasculares e hepáticas.”

  • Manuel Antunes - Cirurgião Cardiotorácico e Professor da Universidade de Coimbra. Resposta: “Infelizmente, o consumo excessivo de álcool é bem tolerado, até aceite, no nosso país. O impacto na saúde, praticamente em todos os órgãos, é devastador, também com consequências económicas e sociais muito grandes.”

  • Maurício Barbosa - Bastonário da Ordem os Farmacêuticos. Resposta: “ É muito preocupante, mais ainda a triste incidência em jovens de menor de idade. As consequências são péssimas para os próprios, as famílias e a sociedade. Os inevitáveis problemas de saúde refletem-se em menor qualidade de vida e em menor produtividade e conduzem inexoravelmente a mais despesa em cuidados de saúde. Os índices elevados de acidentes de trabalho, de viação, etc., e de violência também se correlacionam com o alcoolismo.

  • Nuno Sousa - Diretor do Curso de Medicina da Universidade do Minho. Resposta: “Nefasta para a saúde. Claramente a carecer de uma campanha de educação.”

  • Paulo Mendo - Antigo Ministro da Saúde. Resposta: É um grave problema de saúde pública, responsável por milhares de casos de doenças crónicas de cura difícil e tratamento muito caro. Pior (ou melhor), a cultura milenar do nosso povo aceita e tolera esta praga!”

  • Purificação Tavares -CEO da CGC Genetics. Resposta: “Os hábitos de população e os estilos de vida favorecem este consumo, pelo que deveria haver preocupação e contenção com a publicidade a bebidas alcoólicas, assim como colocar esta tónica no sistema educativo.”


Comentário: O álcool (etílico) é uma droga, depressora do sistema nervoso central, e é das substâncias psicoactivas, geradoras de dependência, mais consumidas no mundo, com a agravante de ser a mais perigosa. O álcool afecta a forma como o individuo pensa, sente e age.

De acordo com vários estudos, efetuados nos EUA, se os problemas com o álcool persistirem  o individuo alcoólico poderá morrer  15 anos mais cedo do que a idade media de morte da população em geral. As principais causas de morte são ataque cardíaco, cancro, acidentes e suicídio, embora também possa detetar doenças do fígado; cirrose.
Outra serie de estudos, efetuados nos EUA e na  Escandinavia, estabeleceram a importância de fatores genéticos na génese do alcoolismo e demonstraram que os filhos de pais biológicos alcoólicos, que deles foram separados quando crianças, cresceram com pais adoptivos, e sem qualquer conhecimento dos pais biológicos, apresentaram taxas muito elevadas de alcoolismo.
Outros estudos revelam que entre filhos de pais alcoólicos, um baixo nível de sensibilidade ao álcool resultou num risco de 60% de alcoolismo 10 anos mais tarde, enquanto a elevada sensibilidade ao álcool resultou apenas num risco de apenas 15%. A reação a doses moderadas de álcool possa dificultar aos filhos de alcoólicos o recurso às suas próprias sensações, depois de beberem, para decidirem o momento em que devem parar de beber. Estes estudos servem para sublinhar as possíveis componentes genéticas e biológicas do alcoolismo. Os dados recentes mais fiáveis indicam que o alcoolismo é uma perturbação geneticamente influenciada com uma taxa de hereditariedade, semelhante aos diabetes. Isto é, existe a possibilidade de o alcoolismo passar de geração para geração (pais para filhos)[i]

Todos nós sabemos que o abuso do álcool e do alcoolismo é um problema de saúde gravíssimo, mas dado à sua complexidade (epidemiologia e da etiologia, e os efeitos sociais) vivemos uma cultura de negação associado às consequências e aos efeitos trágicos do abuso do álcool, do alcoolismo no individuo, na família, incluindo as crianças, e os custos para o estado. Li algures que existem um milhão de bebedores problemáticos e 800.000 indivíduos alcoólicos, se juntarmos a estes dados, as suas famílias, incluindo as crianças, mais os jovens adolescentes que recorrem um binge drinking (abusar do álcool cujo intuito é a intoxicação/embriaguez), as despesas de saúde e as despesas para o estado, os acidentes e o suicídio, mesmo assim, apesar das evidências e do agravamento do fenómeno, todos nós, continuamos a abordar o problema de saúde pública, do abuso do álcool e do alcoolismo, como se estivéssemos a discutir o problema do vizinho ou como se não tivéssemos nada a ver com isso, atitude que designo de estigma e  negação. 

Para se ter uma noção da gravidade do problema, creio ser comum encontrar na maioria das famílias portuguesas, um caso de um individuo (membro da família, por exemplo; avô, pai, primo, tia, avó, mãe, irmã ou irmão) que tenha sido afetado pelos problemas associados ao álcool, no passado ou no presente; de realçar que o alcoolismo pode passar de geração em geração.

De acordo com os estudos científicos, na maioria dos países civilizados, incluindo a Organização Mundial de Saúde é urgente investir com compromisso na educação, na prevenção junto das populações e no tratamento do abuso e do alcoolismo, todavia, os interesses económicos e os lobbies acabam por ditar as regras, em detrimento da saúde das pessoas, incluindo as crianças, com o consentimento dos decisores políticos. Por outro lado, observo há vários anos, nos meios de comunicação social, de acordo com os sucessivos governos, promessas onde os políticos afirmam que a lei da venda e consumo do álcool vai ser alterada, mas mantém-se inalterável; somos o único país da EU a permitir a venda e o consumo de bebidas alcoólicas a menores de idade. Aparentemente, existe um certo laxismo e desinteresse na investigação jornalística, na legislação, na politica sobre este assunto complexo e trágico que afeta milhares de portugueses, incluindo as crianças, e passo a citar o jornalista do JN “Eis uma chaga que nenhum Governo consegue sarar “. Pergunto; se é considerado uma “chaga”, porquê teimamos em negar a tragedia humana e os custos económicos e sociais? Na minha opinião, a dita “chaga” nunca será eliminada, pelos decisores políticos, visto haver outros interesses mais importantes que os direitos humanos e o direito à saúde, incluindo as crianças.

À data deste post ainda somos um país que permite e promove o consumo e o abuso de bebidas alcoólicas a jovens menores de idade, estando assim a contribuir e para o agravamento para o problema de saúde pública.

Esta questão é um dos motivos pela qual justifico a existência e a minha dedicação a este blogue – Prevenção das Dependências.







[i]  “Abuso de alcool e drogas” Marc A. Schuckit - Climepsi Editores

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Uma cultura que não previne


Depois de ver o vídeo: Magazine da RTP - Sociedade Civil (i) atrevo-me a confirmar, aquilo que venho a afirmar desde a existência deste blogue (2007), que não existe uma cultura de Prevenção das Dependências em Portugal. Quando se abordam "os consumos de álcool e outras dependências juvenis", nos meios de comunicação social, aborda-se o assunto de uma forma muito superficial, diria resignada e cordial entre as partes envolvidas, numa atitude de negação para com a verdadeira dimensão do problema. Alguns factos: 1. Facto: Somos uma cultura que bebe; que promove e incentiva o consumo e o abuso do alcool de jovens a menores de idade. Pessoalmente, fico preocupado quando imagino equipas de indivíduos adultos, à volta de uma mesa, a discutir técnicas agressivas de marketing cujo alvo são jovens de 16 anos e o consumo de bebidas alcoolicas. 2. Facto: O álcool é uma droga. O abuso de álcool e o alcoolismo são um problema de saúde publica. Questão da qual não conheço a resposta: Quantos portugueses, refiro-me aos indivíduos, às suas famílias, incluindo as crianças, são afectados pelo abuso do álcool e do alcoolismo?
Nota: Sem esquecer as outras substâncias psicoactivas lícitas, medicação receitada pelo medico (auto medicação), e as ilícitas.
O problema serio dos "consumos do álcool e outras dependências juvenis" persiste, intocavel e negligenciado, e assim é porque não existe vontade politica, legislação e investigação que considere a prevenção das dependências uma prioridade (plano nacional de saúde); o investimento financeiro na prevenção e na saúde das crianças e jovens, compensa, a médio e a longo prazo.

Infelizmente neste programa/magazine da RTP não abordou o fenómeno, relativamente recente, preocupante e investigado nos EUA e no Reino Unido, também varias vezes referido neste blogue, denominado Binge Drinking (http://kidshealth.org/teen/drug_alcohol/alcohol/binge_drink.html). O que é o Binge Drinking? Abuso no consumo de bebidas alcoólicas, num período reduzido de tempo, cuja principal intenção é a intoxicação (embriaguez). Por ex. entre os homens o consumo seguido de 5 ou mais bebidas e nas mulheres o consumo seguido de 4 ou mais bebidas. Este fenómeno pode ocorrer durante varios dias seguidos e afecta negativamente os comportamentos dos jovens - algumas consequências previsíveis após o Binge Drinking: acidentes, condução sob o efeito do álcool e/ou drogas, violência, agressão  sexual e abuso, doenças sexualmente transmissíveis (hepatite, VIH) , intoxicação alcoólica e morte
Para terminar, eis algumas questões que precisam de ser investigadas e reveladas ao publico em programas semelhantes ao magazine Sociedade Civil da RTP. Afinal é serviço publico.

1. As festas organizadas pelas associações de jovens estudantes, de norte a sul do país, são patrocinadas pela industria do álcool, cujo intuito é somente o lucro.

2. Nos eventos,  onde o publico é maioritariamente jovem (festejos estudantis, festejos da grandes cidades) quais as medidas legislativas de forma a prevenir o marketing agressivo da industria do álcool?

3. Quantas crianças/jovens são admitidas nas urgências dos hospitais como consequência do Binge Drinking?

4. Quais as consequências, entre os jovens, do Binge Drinking?

5. Quantas mortes estão relacionadas com o Binge Drinking?

Siga o link e veja o programa da RTP
(i) RTP Magazine Sociedade Civil


segunda-feira, 14 de maio de 2012

Crise na Família



Nos últimos meses tenho recebido vários emails de mães, assustadas e impotentes, perante o eventual fenómeno do consumo e/ou dependência de drogas ilícitas.
Uma das questões mais comuns: “O meu filho de 16 anos consome haxixe. Ele diz que não há problema, mas estou assustada, será que ele pode ser toxicodependente?”

Prevenção que não previne, pelo contrário.
1. Hoje em dia, um número muito significativo de crianças e jovens está exposto e vulnerável perante o fenómeno do consumo excessivo de drogas lícitas, incluindo o álcool, e as ilícitas e em relação a este fenómeno sabemos apenas a ponta do iceberg, isto é, não existe prevenção em Portugal.

2.  Um número significativo de jovens faz consumos concomitantes de bebidas alcoólicas e canabinoides (haxixe e marijuana). Através da minha experiencia profissional, atualmente o consumo de substâncias psicoactivas ilícitas, canabinoides (http://www.doping-prevention.de/pt/substances-and-methods/cannabinoids/cannabinoids.html), faz parte de um acto social, idêntico ao consumo de bebidas alcoólicas, que desde os anos 80 tem ganho cada vez mais adeptos. Quais são os efeitos a medio e longo prazo, nos jovens sobre o consumo excessivo e concomitante entre as bebidas alcoólicas e os canabinoides (THC)? Não conheço a resposta nem existe investigação.

3. A guerra global às drogas existe desde os anos 70 e está longe de acabar. Aquilo que sabemos é que a oferta (trafico) supera a procura (consumo), eis um exemplo muito prático, se um jovem curioso  está interessado em consumir e experimentar os efeitos dos canabinoides, não tem muito trabalho e/ou esforço para conseguir obter a desejada substância. É mais simples, do que possamos imaginar. Há 25 anos atrás um jovem que quisesse encontrar, por exemplo haxixe seria mais difícil, hoje não. Por exemplo, no outro dia li num jornal, que um jovem foi detido, na sua escola, por se dedicar ao tráfico de drogas. Ficamos alarmados, mas de certeza que não é um caso isolado.

O que é que acontece quando o consumo de drogas ilícitas entra em casa, de rompante?
Frequentemente, quando surge no seio familiar, evidências sobre o consumo de substâncias psicoactivas ilícitas, canabinoides, pela criança/adolescente, a reação da mãe, quanto ao pai é o ultimo a saber, é de choque; “ E agora? O que é que vamos fazer?” Por exemplo, quando uma mãe aborda o assunto do consumo com o filho, a resposta é: “Mãe, não estejas preocupada porque eu sei o que estou a fazer. Sabias que o haxixe é uma droga leve? Sabias que o álcool é mais perigoso que o haxixe? Eu não fumo muito, é só de vez em quando.” Perante esta resposta, mais ou menos esclarecedora, do ponto de vista da mãe, esta fica mais tranquila, pensa que o filho está devidamente informado e é responsável por aquilo que faz, algumas mães ainda teimam, indecisas, em tom de ameaça velada “Vê lá o que andas a fazer, porque se o teu pai sabe disso já sabes como ele é”. 

Sem explorar mais dinâmicas na família (interação filho e mãe/pai) em relação ao assunto, de acordo com a resposta do filho, podemos pensar em duas questões: 1. O assunto da prevenção sobre o consumo de cannabinoides, na família, não foi abordado 2. com a agravante de a informação que o filho possui, provavelmente foi obtida na rua com os amigos que também fumam e ou na internet  “O haxixe é uma droga leve. O álcool é mais perigoso que o haxixe, por isso devia ser legalizado.” A criança/adolescente pensa: “Só é perigoso se fumar muito, por isso, se fumar de vez em quando não faz mal.” Sabia que apesar do haxixe não provocar dependência, pode tornar-se um hábito? Sabia que o nível de THC, ingrediente psicoativo toxico (http://pt.wikipedia.org/wiki/Tetraidrocanabinol) [i] que potencia o efeito, é elevado, comparado com o nível de THC de há duas décadas? Sabia que apesar de ninguém morrer com o consumo excessivo de cannabinoides, todavia, em alguns indivíduos, pode conduzir á loucura? Sabia que, na última década, os pedidos de ajuda, por exemplo no Instituto de Droga e da Toxicodependência (http://www.idt.pt) e outras instituições relacionados com o consumo excessivo de cannabinoides aumentaram significativamente? Sabia que as substâncias psicoactivas (sistema nervoso central) interferem no desenvolvimento normal do cérebro humano que só completa a sua maturação aos 21 anos de idade? Na minha opinião, pessoal não existem drogas leves nem drogas duras, é um mito, existem drogas psicoactivas, de acordo com as suas especificidades.

Adiante, voltemos ao assunto da família. Se as consequências relacionadas sobre o consumo dos cannabinoides se agudizam, no comportamento do filho (por ex. absentismo escolar, impulsividade, perda da memoria e concentração, euforia, pequenos delitos, isolamento da família – o convívio familiar é comprometido em prol do convívio com os pares; ex. deixa de haver horários para entrar e sair de casa, para as refeições, a família não conhece os amigos) estão reunidas as condições para uma crise na estrutura familiar, e caso não sejam adotadas medidas integradoras e construtivas, pode comprometer seriamente a comunicação e a coesão familiar (estrutura/hierarquia). 

Quando a questão do hábito do consumo de canabinoides e as consequências negativas é do conhecimento geral de toda a família, o foco da atenção é direcionado para o membro (criança/adolescente): Por exemplo, varias tentativas para interromper o hábito dos consumos, censurar e castigar, ameaças que não se cumprem e/ou tentativas em negar ou minimizar o problema. Apesar de este tipo de abordagem, funcionar em alguns casos, creio que não funciona na maioria deles. Um dos fatores que pode contribuir para o aumento exponencial da crise na família são o surgimento de quezílias antigas entre os membros da família (exemplos; defeitos de caracter, ressentimentos, remorsos e mágoa, divorcio, infidelidades, segredos) que complicam, ainda mais a abordagem do problema do habito e as consequências do consumo, assim como a solução. A dinâmica e hierarquia familiar (crianças, adolescentes e adultos) podem tornar-se caóticas, por exemplo através da agressividade ou passividade, da troca de acusações, na procura de culpados. Perante um problema na família, quem é o responsável por gerir os recursos da família? Quem é o responsável pelas decisões na família? Quem é o responsável por assumir determinados riscos na família? A hierarquia familiar está sustentada em valores e tradições que fomentam o diálogo? A coesão? A confiança?  

Se fossemos à procura de culpados para eliminar o problema das dependências, o mais provável é que seriamos todos nós. Depois, tal como foi referido anteriormente, o fenómeno das drogas veio para ficar. Vivemos numa sociedade capitalista em que o lucro (poder económico) está acima dos direitos e das liberdades da criança. Não existe vontade dos líderes políticos e na justiça (leis) quanto à prevenção das dependências. Na realidade, quando uma criança/adolescente, decide voluntariamente, consumir canabinoides e esse tipo de comportamento o conduz ao hábito, não existem culpados. O fator mais importante, na minha opinião, é a forma como a família se organiza e se estrutura em torno do problema, em vez de criar mais problemas. Afinal, o mais importante é o apoio à criança/adolescente.
Na crise familiar é extramente importante restabelecer o diálogo, a coesão, definir um plano e limites, regras que salvaguardam a instituição familiar -“O todo é mais importante que a soma das partes.” Só somos livres se vivermos de acordo com as regras instituídas, quer seja na família ou na sociedade, caso contrario, teremos que assumir as consequências dos nossos atos, quer sejamos crianças, adolescentes ou adultos. Na natureza não existem culpados, existem consequências.

Dicas:
1. Antes que surjam indícios sobre o consumo de substâncias psicoactivas lícita, incluindo o álcool, e as ilícitas, da parte do seu filho, aborde o tema da prevenção das dependências. Procure ajuda. O seu esforço e o seu investimento, neste tema, pode revelar-se recompensador, a medio e a longo prazo.

2. Questão: Quais são as regras instituídas pela família quanto ao consumo de substâncias psicoactivas lícitas, incluído o álcool e o tabaco, e as ilícitas? Se não existem regras definidas e esclarecidas por todos, trate de implementar, com os membros da sua família, antes que surjam factos e evidências, porque depois pode ser tarde. Como progenitor, dê o exemplo na aplicação das regras.

3. Se o seu filho consumir substâncias psicoactivas, canabinoides, isso não significa que ele/ela vai ser um dependente. Todavia, promova o diálogo sobre o assunto; não desvalorize ou sobre valorize. Trabalho de equipa: promovam atividades em família na pesquisa, atualização e informação sobre os efeitos do consumo excessivo de cannabis.

4. Caso exista na família um historial de doenças mentais (depressão, ansiedade) ou dependência de drogas, incluindo o álcool, esteja atento/a caso o seu filho seja consumidor de substâncias psicoactivas (ex. canabinoides) e informe-o das possíveis consequências, porque o consumo pode despoletar e/ou agravar os sintomas da doença (hereditariedade).

5. Treine o ouvir, sem interromper e sem fazer julgamentos de acordo com valores moralistas e desatualizados pela sociedade. O que é que ele/a pensa sobre o consumo? Qual é a atitude dele perante este comportamento? Avalie se ele/a ouve, se é responsável, se tem auto crítica, se aquilo que diz é coerente com aquilo que faz.

6. Faça perguntas, se quer obter as respostas que pretende.

7. Peça ajuda

Facto: Desde 2007, ano da existência deste blogue, até aos dia de hoje, ainda não recebi um único email de pais assustados em relação ao consumo e/ou abuso de bebidas alcoólicas. Você sabia que as drogas mais perigosas são as drogas lícitas? Refiro-me ao álcool e ao tabaco.



[i] Nota: Pesquisei a palavra Delta9 Tetrahidrocanabinol, também conhecido por THC no portal da saúde, no portal do IDT e não obtive qualquer resposta. Aparentemente, a prevenção das dependências não existe em Portugal.

terça-feira, 3 de abril de 2012

A família: grupo de pessoas que não escolhemos, mas que herdamos.


A família estruturada: é uma questão de sorte ou são os genes que determinam a sentença final?
Algumas considerações observadas ao longo da minha experiência profissional.


Segundo a Dra Claudia Black "A família é um organismo complexo composto por diversas partes que compõem o todo”

- Como você sabe, este todo complexo, funciona quando as partes estão sintonizadas (equilíbrio). Nos comportamentos adictivos activos, a dor aguda e prolongada, exige modificações e adaptações. Em muitas situações radicais o equilíbrio da relações é sacrificado.

- Apesar da dor, é normal entre o sistema de relacionamentos da família haver crises ou separações. Caso você esteja numa crise encontre um sentido para a sua dor. Não fique destroçado/a sem um propósito. Aprenda com o acontecimento e procure apoio nas pessoas significativas e disponíveis. Se encontrar um propósito para o sofrimento está a valorizar as suas competências e os seus recursos através da adversidade.

- No sistema de relacionamentos da família a comunicação honesta é vital para o equilíbrio. Seja honesto/a e fomente um ambiente de abertura e flexibilidade. A melhor maneira de o conseguir é simplesmente parar de falar e começar a ouvir. Não tolere violência física, agressões verbais, humilhações ou qualquer outro tipo de maus tratos.

- Apesar de parecer confuso, é normal entre o sistema de relacionamentos da família haver crises. Diferenças de ideias e carácter, diferenças de crenças, diferentes pontos de vista, diferenças de experiências. Na família, a questão a ter em conta não é saber o que é que pode despoletar uma crise, a questão importante é; quando vai ocorrer. Por muito boa que seja a relação, um dia há de deparar-se com uma crise e isso há de ter impacto na sua vida. Pânico? Invista num plano de gestão, consciente e delineado. Trabalhe em equipa.

- Não existem pessoas perfeitas nem famílias perfeitas, todavia existem valores morais que promovem a comunicação honesta, a liberdade de expressão e de escolha, o respeito mutuo, a interajuda com limites ao longo da vida.

- Ao longo da educação das crianças existem ocasiões, de curta duração, onde a intervenção honesta e genuína do adulto resiliente, abnegado e comprometido com uma causa social, se reveste de uma aprendizagem recheada de conteúdo e potencial ao longo da vida, podemos acrescentar, de Propósito e Significado.

- Quando os pais se divorciam as crianças sofrem. Quando os pais querem proteger os filhos da dor (normal) podem interferir negativamente no processo de adaptação à nova realidade. A investigação revela que a resiliência, nas crianças, protege-as, principalmente quando o pai/mãe não as colocam no meio da hostilidade/conflito entre eles.

- Sabia que as crianças filhas/os de pais alcoólicos e/ou dependentes de substâncias psicoactivas ilícitas, vulgo drogas, "carregam" para o resto das suas vidas adultas as consequências da adicção? São adultos que receiam a intimidade, são adultos que negligenciam as suas necessidades básicas (amar e ser amado), apresentam níveis baixos auto estima, não existe limites nos relacionamentos, desenvolvem relacionamento de intimidade disfuncional, ex. codependência.

- Imensas famílias sofrem horrores (dramas e tragédias humanas) porque não se conseguem libertar da constante necessidade de controlo. O sofrimento é familiar, desenvolvem uma tolerância (controlo) elevada ao sofrimento. Não concebem o recuar, o desapego, o largar, a entrega. Ex. codependencia.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Fenomeno Binge Drinking



Este video revela o Binge Drinking entre os jovens ingleses, todavia o fenomeno é identico em relação aos jovens em Portugal. 
Proporcione aos seus filhos uma educação realista sobre as consequencias negativas do consumo abusivo do alcool, por exemplo doenças sexualmente transmissiveis, gravidez indesejada, bullying, condução sob o efeito do alcool (crime), intoxicação aguda pelo alcool. 
Fenómeno Binge Drinking entre os jovens - Abuso no consumo de bebidas alcoólicas, num período reduzido de tempo, cuja principal intenção é a intoxicação (embriaguez).


quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Políticos e a Prevenção das dependências



De acordo com os últimos dados do Instituto da Droga e Toxicodependência e do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência existe um numero significativo de crianças e adolescentes portugueses afectados pelas consequências negativas das substâncias lícitas, incluindo o álcool, e das substâncias ilícitas. Não é novidade, mas apesar das evidências continuamos sem uma política e uma cultura direccionada para a prevenção das dependências. Todavia, estes relatórios não fazem referencias outro tipo de doenças do foro mental, em muitos casos associados ao consumo de drogas, por exemplo, a depressão e o suicídio. De acordo com a minha experiencia profissional, os dados disponíveis estão subavaliados, isto é, sabemos apenas a ponta do “iceberg” e escondem a verdadeira dimensão do problema.

O consumo e o abuso de substâncias psicoactivas lícitas, incluindo o álcool, e as ilícitas entre os jovens, geram consequências graves a nível psicossocial e elevados custos económicos ao longo da vida. A acrescentar ao fenómeno preocupante e aos custos económicos, podemos também incluir os danos à família, na escola e na comunidade. Para além do elevado peso económico, o consumo e o abuso de substâncias psicoactivas lícitas, incluindo o álcool, e as ilícitas, também afecta as competências do desenvolvimento dos jovens, das quais destaco os relacionamentos interpessoais saudáveis, sucesso escolar e também a entrada no mercado do trabalho.  

Como é óbvio, alguns problemas de saúde mental estão ligados aos problemas de saúde física. Nesse sentido, podemos concluir: saúde mental saudável, melhoras na saúde física. Todavia, os políticos portugueses, apesar do seu conhecimento dos dados acima referidos, optam por negligenciar, e consequentemente, aguardar até que os problemas relacionados com as dependências, despontem, com consequências alarmantes e em alguns casos dramáticas, para depois procurarem as soluções “atabalhoadas”, e excessivamente dispendiosas, para os contribuintes portugueses e para a economia do país. As medidas atabalhoadas, servem somente para “desenrascar”  a situação em si, nunca o problema, na sua verdadeira dimensão.

Na minha opinião, actualmente não existe, e nunca existiu desde o 25 de Abril de 1974, (38 anos) uma vontade expressa e/ou um plano concertado entre os parceiros sociais, a investigação científica, os médicos, a comunidade escolar, os tribunais e a sociedade na área específica da prevenção das dependências. As drogas, o alcoolismo, o tráfico, o consumo aparenta fazer parte de uma estratégia de uma agenda política que visa, somente, angariar votos. Infelizmente, são casos de polícia e dos tribunais. Um número significativo de reclusos, são jovens, cujo delito está relacionado com drogas. Sabemos também que as prisões não reabilitam ninguém, pelo contrário. Em Portugal, não existe história, cultura e políticos que cumpram as suas promessas políticas, em prol dos direitos e das liberdades das crianças, provavelmente, por as crianças não terem “voto na matéria.”

Algumas áreas a necessitar de intervenção:
Prevenir a gravidez Indesejável e/ou em idade prematura.
Competências parentais /Planeamento familiar
Promover competências na escola contra o consumo de substâncias psicoactivas, a violência (bullying), e a educação sexual.
Prevenção das doenças do foro psicológico (depressão, suicídio, outras)
Prevenção da adversidade e gestão das emoções e conflitos (Separação, divorcio, dependências de substâncias dos pais, luto)
Promover comportamentos saudáveis junto de populações mais desfavorecidas
Em plena crise social e económica, a indústria poderosa e milionária das drogas e os seus parceiros, vai certamente proliferar. A oferta supera a procura.
Em plena crise social e económica, a indústria poderosa e milionária do álcool, vai certamente investir nas técnicas agressivas de marketing e de venda, visto a legislação permitir essa ilegalidade. Por exemplo, as bebidas alcoólicas e o desporto não se misturam.

Enquanto os políticos optarem pelo silêncio, sobre a prevenção das dependências, estão a negligenciar e a consentir que algumas crianças e adolescentes, famílias e comunidades continuem a sofrer as consequências dramáticas, assim como a (des) responsabilização pelos custos económicos elevados, associados á dependência das substâncias lícitas, incluindo o álcool, e as substâncias ilícitas. O Mundo dos Adultos não é seguro para algumas crianças vulneráveis. Desde tempos remotos, nunca foi, chegou a altura de quebrar o silêncio.

Não será mais económico o investimento na prevenção dos problemas de saúde do indivíduo, da família e da comunidade (física e mental) em vez de o estado (contribuintes) suportar o peso elevadíssimo da factura na negação dos sintomas e consequências? Qual o resultado pratico da luta contra as drogas? Na minha perspectiva, não identifico um envolvimento e um compromisso na maioria dos políticos na luta contra a droga. Precisamos de líderes que saibam liderar e gerar confiança, precisamos de transparência nas políticas deste país. Como diz o ditado popular: “Mais vale prevenir do que remediar”





quarta-feira, 12 de outubro de 2011

ComSUMOS ACADÉMICOS

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Tommy | Underage Drinking Prevention

sábado, 22 de novembro de 2008

Objectivo - Prevenção das Dependencias


Sempre com a Prevenção das Dependências como objectivo – actualização e informação:
Alguns sites interessantes à distância de um clique,apesar da CRISE:

Ciência Viva

Apoio À Vitima

Apoio À Vitima Para Os Jovens

Direcção geral dos Estabelecimentos Escolares

Sicad


Comentário: Apesar de não se falar de outra coisa nos dias que correm - CRISE financeira e económica (aliada à "velha" crise de talentosos gestores e politicos honestos) que o mundo atravessa, incluindo Portugal, é bom relembrar que a Prevenção das Dependências é sempre um assunto a ter em conta no dia-a-dia.

Senão vejamos; desemprego, precariedade, crise, endividamento, depressão, ansiedade, são apenas alguns sinónimos de instabilidade e vulnerabilidade no indivíduo, na família e na sociedade (CRISE SOCIAL). Contudo a "velha" CRISE SOCIAL não é um assunto merecedor de tanta tinta, papel,de gente anónima e peritos a debaterem o assunto,da preocupação de empresarios, de apoios financeiros pelo Estado, de justiça, de tanto tempo de antena nas TV`s,nos jornais, etc.

Para aqueles que se encontram numa "crise social" estão mais preocupados em como "sobreviver" no dia-a-dia do que preocupados com o desenvolvimento do país.O dinheiro (inofensivo) não é o principal problema desta CRISE, mas os valores a ele atribuidos pela sociedade (é a cultura do poder, do sucesso,da saude, da felicidade,da segurança, da competição,da mentira, do egoismo, do fanatismo, etc). Isto sim é a verdadeira CRISE.

Actualmente, negligenciar, desvalorizar ou negar a Prevenção das Dependências é adoptar um comportamento susceptível de potenciar a tão afamada CRISE SOCIAL (individual, familiar e sociedade) terreno fértil para o surgimento de atitudes e comportamentos disfuncionais e/ou destrutivos dos subsistemas familiares (relação entre os adultos -pais, relação entre adultos e as crianças e a relação entre os irmãos).

Todavia a crise também poderá ser sinónimo de MUDANÇA de ESTILO DE VIDA (união, intimidade, solidariedade, comunicação, entreajuda) em todos os sectores da nossa sociedade, sendo assim a oportunidade que tanto desejamos.
Se estamos em CRISE; venha ela e que DEUS nos ajude.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Estrategias mediocres de prevenção



Na realidade, as estratégias de prevenção que visem somente fomentar o medo e assustar os jovens não funcionam.

Alguns pioneiros em prevenção têm aprendido ao longo do tempo a identificar quais as estratégias e programas que não funcionam e assumem a responsabilidade de não voltar a repeti-las. Estratégias mediocres incluem abordagens que evolvam o medo, apelos moralistas e abordagens centradas na informação sobre os perigos do consumo de drogas, programas que visem o desenvolvimento da auto-estima e equilíbrio emocional, fóruns, eventos e testemunhos.

Os jovens desvalorizam toda e qualquer informação, bem como o seu apresentador, que procure amplificar os perigos dos consumos de drogas, a informação falsa e/ou informação exagerada (J. Beck, 1998). Golub e Jonhson (2001) reforçam que mensagens exageradas falham o seu objectivo sobre a informação realista, tem o efeito contrario quando os jovens têm acesso a informação e à experiência contraria aquela que lhes é apresentada.

O director do Centro de Estudos para a Prevenção da Violência da Universidade de Colorado, EUA, Del Elliot afirma que “ Muitas das estratégias quando focadas na punição imediata das ocorrências, após os actos/acontecimentos, interferem negativamente nos resultados pretendidos omitindo assim as verdadeiras causas do problema. O violência intensifica-se porque os verdadeiros problemas não são abordados.”

Nacy Tobler (1992) e Linda Dusenbury (1995) resumem alguns factores essenciais numa estratégia de prevenção: foco em alternativas saudáveis, envolvimento dos pares, abordagens interactivas que incluam a pratica de competências e educação de regras de comportamento que promovam e esclareçam a diferença entre a verdade, ex. dados estatísticos, e os mitos.
Um ambiente escolar saudável e equilibrado é atingido através de uma combinação de políticas e procedimentos claros e realistas, de formação continua e apoio direccionado ao pessoal docente e não docente, alunos, familiares e colaboradores dentro da comunidade escolar.
Alguns peritos envolvidos em prevenção partilham da ideia que as energias aplicadas na educação são mais bem aproveitadas através da utilização de “ferramentas” científicas direccionadas na prevenção do que tentar interromper comportamentos perigosos, sem resultados práticos, através da manipulação e/ou punição e condenação.

Ao longo da minha experiência profissional em trabalhar com jovens que apresentam comportamentos violentos obtêm-se melhores resultados se trabalharmos em conjunto, facilitando parcerias, criando sinergias e a comunicação sendo genuínos, tolerantes, honestos e firmes.

Muitas vezes a resistência observada nos jovens começa em nós profissionais, quando colocamos “rótulos”, por vezes inconscientes e só identificados em supervisão, de “jovens difíceis”... “jovens agressivos”... “jovens defensivos”.

Referências: The Colorado Department of Education: Improving Academic Achievement - Safe and Drug-Free Schools and Communities